No início de 1995, eu aprendi a gostar de futebol. E,
antecipando uma tendência na minha vida, meu coração seguiu um caminho muito
bonito e muito difícil: torcer pelo Santos. Não era nada fácil ser menina,
gostar de futebol e ser santista. Ainda mais em São Paulo. Nós éramos o núcleo
cômico da época.
Mas amor, meus amigos, o verdadeiro, não se constroi sobre
conveniências. Ele existe e fim. Aquilo que se diz nas cerimônias de casamento
não deveria ser uma promessa, e sim uma constatação. O amor verdadeiro permanece
o mesmo na alegria e na tristeza.
A torcida do Santos conhecia isso tudo. Os afortunados com
umas décadas a mais de vida testemunharam a alegria plena de ter o melhor time
do mundo e o melhor jogador de todos os tempos. Seus filhos e netos, embora
conhecessem as histórias de cor, não tinham tido a mesma sorte. Até o
Campeonato Brasileiro de 1995.
Ali vimos surgir Giovanni, um verdadeiro maestro a reger um time modesto, porém sério, eficiente, motivado. O grupo trabalhava junto e,
aos poucos, conseguiu lugar de destaque na competição mais importante do país.
A classificação para as semifinais veio na última rodada da segunda fase, com
direito a gol aos 40 do segundo tempo. Tão sofrido quanto lindo.
Encaramos o Fluminense do Renato Gaúcho, o favoritismo
deles, o tratamento desigual da imprensa. Engolimos a seco um placar adverso de
4 a 1 no primeiro jogo. Enfrentamos o “já ganhou” dos cariocas e, claro, mais
um sem fim de piadas dos adversários locais. Ainda sem digerir a derrota,
levantamos a cabeça para a segunda partida.
Contradizendo uma das piadas mais comuns a nosso respeito, lotamos o Pacaembu. Aproximadamente 30 mil abençoados puderam ver de perto o milagre do futebol acontecer. Outros tantos, como eu, acompanharam pela TV, não menos emocionados.
Giovanni fez os dois gols que prometera um dia antes.
Terminamos o primeiro tempo em vantagem e o time permaneceu em campo durante o
intervalo para continuar conectado com a força da torcida, num dos mais belos
momentos já vistos no futebol. Veio a segunda etapa e fomos brindados com todo
tipo de brilho e drama – dribles desconcertantes, toque de calcanhar, chutes de
fora da área. Conseguimos. Vencemos por 5 a 2 e devolvemos a diferença. A
vantagem do empate era nossa, e a classificação também.
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Força de vontade, superação, determinação e tantos outros
clichês podem ser utilizados pra descrever a partida. Eu prefiro resumir a uma
palavra: esperança. O que aconteceu naquela tarde, há exatos 17 anos, foi a
renovação desse sentimento na torcida santista - não apenas pela reversão de um
placar muito desfavorável, mas por lembrar a todos nós que a magia da camisa
branca estava apenas adormecida, mas sempre poderia retornar. E a esperança era vermelha. Vermelha da cor dos cabelos do
Giovanni, que os pintou para pagar uma promessa pela classificação para as
semifinais. Em sua homenagem, centenas de santistas fizeram o mesmo.
O amor verdadeiro é gratuito e duradouro, mas fica muito
mais bonito quando é recíproco. No dia 10 de dezembro de 1995 tivemos a nossa
reconciliação, nossa segunda lua de mel. A renovação dos votos foi fundamental
para os tempos difíceis que vieram em seguida. A nossa geração tinha, então,
uma linda história a ser contada. E é por isso que estou, pela décima sétima
vez, comemorando o aniversário do jogo da minha vida.






